Ele já foi descrito variadamente como:
"O Aleister Crowley de sua época, porém, mais indicioso". (Guardiões da Juventude, grupo de vigilância da mídia)
"Um homem de grande coragem, princípio e humanidade." (o arcebispo de York)
"Um pilantra seboso e de quinta categoria." (seu pai)
"Pessoa perigosa de se conhecer" e "Um filho da puta da cabeça aos pés." (Ted "Gold" Digger, acólito da família Manson, não-condenado)
"Um bom companheiro." (John "Pearly" Grey, autocrata do crime em East End; sabiamente, o único homem temido pelos notórios irmãos Kray). Já sabe quem é? Não? Mais algumas pistas então.
Vocalista do efêmero, porém brilhantemente cáustico, grupo de rock Membrana Mucosa, em 1978.
Notório ocultista que passou dois anos no manicômio, depois de fracassar ao tentar, na vida real, um exorcismo igual no filme de William Friedkin.
Não? Estou decepcionado com você. Pensei que era gente das ruas.
Isso porque, desde que esse cara apareceu nas paradas, as pessoas que conhecem gente vivem falando de John Constantine. Eu estou falando sério, os contatos desse cara são incríveis - ele tem história.
Como você nunca ouviu falar dele? O sujeito é uma lenda, pelo amor de Deus!
Está lembrado dos festivais de rock do começo dos anos 70? Não?
Vai ver você é muito novinho. Pôs foi Constantine que descolou a grana para fazer os shows acontecerem, apostando que seria capaz de prever a data exata e o horário do ataque cardíaco fatal de Lyndon Johnson. Os corretores de apostas chiaram um pouco, mas aceitaram o jogo e tiveram de pagar. O que achou dessa? Aposto que o tempo todo você achou que o Amor pagou o aluguel dos sistemas de som.
E o inspetor-chefe "Basher Babbige, heim? Isso mesmo... O tira filmado por uma rede de tevê fumando um baseado enorme, numa daquelas manifestações anti-guerra do Vietnã, em Grosnover Square. Você deve se lembrar - foi uma tomada sensacional. No fundo, estava a baixada americana como uma fortaleza medieval - linhas azuis de guardas
encarando a multidão, todo mundo cantando, empurrando, queimando as bandeiras e tudo mais que compunha os protestos: meganhas montados em cavalos, se lançando no meio da multidão, jogando pólo com a cabeça da moçada - um caos. Então, de repente, a câmera focaliza aquele tira cheio de divisas brilhando nos ombros, recostando-se na cerca, puxando um fumo com a cara de idiota estampada com um sorriso de êxtase. Mais tarde, ele afirmou que não se lembrava de nada, exceto de ter falado rapidamente com um dos líderes da manifestação. Os médicos diagnosticaram lapso de memória induzido por stress, e ele teve que dar baixa. Mas a história nas ruas era que Constantine foi o líder que preparou o infeliz para a equipe de filmagem - hipnotismo ou coisa parecida.
É, eu estou sabendo qual é a sua. Você é da década de 90. É jovem demais e ganancioso. Não que saber de um hippie ultrapassado, que aprontou algumas na época em que dinossauros ainda moravam em Hyde Park. Acontece que existe mais envolvendo esse cara do que algumas aprontadas - muito mais.
O problema é que o sujeito não gosta mesmo de publicidade. Entrevistar John Constantine é como tentar agarrar uma sombra. Até agora, para os jornais, ele parece representar uma superfície tão impenetrável quanto as fuselagens dos discos voadores dos filmes de ficção científica da década de 50 - conhecimento e experiência assombrosos e impressionantes estão trancados a sete chaves em seu interior. A primeira coisa que o intrépido escriba que vos fala descobriu, ao se pôr na perseguição dessa fera arisca, foi que todo mundo que tem algo a ver com John Constantine tem uma opinião formada. Ou eles adoram o cara ou o odeiam - pode acreditar, esse sujeito impressiona as pessoas. Vamos voltar o tempo em algumas semanas.
Meu companheiro e eu estávamos nos divertindo muito, agasalhados pela generosa hospitalidade de um fim de expediente no BETHLEHEM SLOUCH, quando de repente, ele é vítima de um comentário lesa-majetade, inoportuno, mas hilariante, a respeito da glória indiscutível
de seu atual corte de cabelo. A ofensa veio de um sujeito pequeno, de aparência não-chamativa, que usa um sobretudo, fala com sotaque da zona sul de Londres da década de 70, com um quê de marinheiro, e bebe algo que cheira Genebra num copo bojudo.
Tendo suas origens "nas ruas" e estando perigosamente cheio de cerveja, eu esperava ver a magoada vítima dessa descortesia cair sobre o sujeito arrogante e, desancando pragas e palavrões, arrancar sua goela. Talvez seja alguma coisa nos olhos do cara, que ardiam com uma intensidade reminescentes das lâmpadas existentes em filmes classe B, de terceira categoria; ou a maneira como a boca fina se contorce, ostentando um cruel mas inocente sorriso, como se para dizer: "Qual é, cara? Foi só uma brincadeira. Deixa de ser besta. Melhor você não revidar, mas se quiser, eu te mato".
Seja como for, o machismo que meu companheiro murchou feito um pinto dura diante da circuncisão, e, contentando-se em rosnar "Quem esse cara pensa que é?", virou-se para atormentar um garçom. Sua pergunta, todavia, permaneceu comigo. Seria, pensei, intrigante e provavelmente lucrativo descobrir.
Nesse momento, Constantine está sussurrando no ouvido maravilhosamente esculpido de uma mulher trajando vinil negro vistoso, que eu reconheço como Suzuki Skreen, baixista do CHOICEST CUT. Entretanto, antes que eu possa negociar meu avanço através da multidão, ela mete no queixo de Constantine um job de direita que poderia ter apagado todo um quarteirão. "Você é
um tarado, Constantine. Sua cabeça é suja como uma latrina." Ela partiu num borrão rangente de plástica e cabelos ruivos. "Ah! Você não foi tão exigente assim quando pensou que estava grávida daquele reprodutor de demônios em Berlin, boneca." Eu fico perplexo.
Então, me aproximo para apresentar minhas credenciais, mas ele passa ao me redor como se eu fosse uma peça da mobília e se mete entre os seguranças que o guiam até a porta, atrás do qual os iniciados do BETHLEHEM SLOUCH estão separados da gentalha. Eu vejo a multidão saudar o cara pelo nome... e ele está dentro. Minha oportunidade está se esquivando. Descuidadosamente, tento seguir. Dois dedos me agarram pelo peito como ganchos de um caminhão de carga, e eu caio pra trás, desengonçado. Por trás da porta ouço a inconfundível e áspera saudação de Svengali, o vocalista da banda GREAT BEAST. "John, seu puto. Pega uma garrafa e conta pra gente como vai a guerra com o Inferno. Você não aparece mais. Tem visto a velha turma como aquele pinel - como era o nome dele mesmo - Gary Lester?
"Não, não o vejo a anos. Pelo que sei, ele já era. O cara vivia com o pé na cova. Que tal mudar de assunto, heim, parceiro?"
Meu aguçado faro jornalístico ficou em alerta total. Eu me determinei a não descansar até levar a você a verdadeira face deste "herói da contracultura", o misterioso "Homem de Todas as Estações", John Constantine.

Entrevista completa e análise aprofundada na revista do mês que vem.