Quem diria que nos dias de hoje finalmente estaríamos apreciando histórias daqueles que nem sempre são loiramente corajosos, leais, fortes e super poderosos? Vivemos em um amargo mundo onde as coisas não são nada "certinhas" como os famosos super-heróis.
As histórias antigas sempre contaram com heróis e vilões; fortes ideais de certo e errado. Depois os heróis começaram a fazer coisas um pouco erradas e desastrosas, a serem mais humanos. Esses seriam os heróis errantes. E por fim veio aquele arquétipo diferente de todos os anteriores: os anti-heróis. Afinal, a sociedade já está tão saturada de boas intenções que a idéia de herói mudou muito. Ficou impossível você enfrentar o mal sem ser afetado.
É por isso que eu te apresento o Sr. "ambigüidade moral" John Constantine. Era uma vez os heróis que assim que o bandido aparece, demonstrando sua superioridade mental e física, davam umas porradinhas no infeliz e o mandavam para cadeia. Esse definitivamente não é o estilo de John Constantine, que é cruel, mentiroso, traidor, covarde e manipulador; um simpatizante do não simpático. E é aí que a história começa a ficar interessante.
Por causa de todas essas características fica a dúvida se Constantine é um anti-herói e não um vilão errante. Na verdade, a existência do mago inglês é um sapateado entre os extremos do bem e do mal. Ele representa o vício e a virtuosidade humana; a escolha e a as conseqüências da escolha. Amaldiçoado por que ele se preocupa; duplamente amaldiçoado quando não se preocupa. Mas então, John não é um vilão?
A resposta pra isso é um tanto quanto estrutural. Constantine não é um dos caras maus porque eles ocupam a história de uma maneira diferente. É comum e suficiente saber que os vilões são violentos, egoístas, insanos e não se pode especular sobre os seus motivos. Eles só estão lá fazendo o mal. Já o anti-herói tem um objetivo, às vezes difícil de enxergar, mas tem. É por isso que é diferente.
Nós vemos Hellblazer contando a história pessoal de John Constantine, constantemente autojustificativa e cheia de remorso. Nós temos a visão "privilegiada" de todo sofrimento que ele causou, junto com todas as coisas horríveis que ele faz para sobreviver, alimentando-se de loucura com a frase na cabeça: "Bem, os meios justificam o resultado, não?" Uma lição para quem quer salvar o mundo e depois encobrir o seu traseiro como se nada tivesse acontecido. Além disso, existem outras coisas que é válido citar sobre John Constantine.
Primeiro, a resignação de John. Certamente uma pequena porção de sua vida teria levado um mortal mais fraco a mais faminta loucura. Permanentemente. John já foi parar no fundo do poço várias vezes mas sempre voltou ao normal. Nada o atingiu tão forte a ponto de ele não conseguir achar uma maneira de lidar com isso. Claro que "lidar" pode significar ficar bêbado, maluco ou simplesmente chorar as pitangas até fazer uma poça no chão. O que é muito interessante. John nunca se esquece de que: "Se eu desistir os desgraçados vencem. E eu não vou dar a eles essa satisfação." Orgulho talvez seja seu o calcanhar de Aquiles mas é o que o força a levantar sua cabeça da piscina de vômito fresco em que ele vive; olhar para você direto nos seus olhos e desafiá-lo a tentar julgá-lo.
O segundo é sua raiva. Quando ele não está paranóicamente em autopiedade Constantine é um grande crítico social. É a mais pura verdade dizer que a raiva de Constantine tem tudo a ver com sua habilidade de ser profundamente tocado pelo mundo.
Saindo um pouco do assunto, é de grande fascínio o que vemos no campo de "interesses amorosos" nas histórias de John Constantine. Principalmente todos os altos e baixos que as mulheres causam em sua existência. O mundo "toca" Constantine, por bem ou por mal, através das mulheres.
Como qualquer adulto inteligente, John é muito ambivalente sobre o sexo oposto. Se Ennis não fez outra coisa durante as fase em Hellblazer, ele iluminou o fato com a figura de Kit Ryan. Conforme sua própria lógica o anti-herói precisa se manter um estranho para a esperança e o que todas as namoradas de John representam é esperança. Elas são um símbolo e uma conduta para seu desejo e habilidade para mudar.
Ele sabe que a salvação pessoal não se compra no mercado, mas Emma, Zed, Marj e Kit foram desafios para Constantine se preocupar. Se você se preocupa você pode se magoar. Se você não se preocupa você condena sua alma. Esse paradoxo é construído através de seus relacionamentos com as mulheres. Mas como todo amante sabe, nem sempre existem finais felizes. Confiança foi feita para ser traída. Esperança para ser substituída. Todas as vezes ele voltou atrás com menos de si para dar. Mais sozinho, mais cansado, mais desesperado do que antes. Delano o abençoou por entender essa implicidade.
O terceiro é o humor. O relacionamento entre poder, autoridade e humor é essencial na construção do anti-herói. Por que será que com todas as reservas de dinheiro que John possui ele continua vivendo em apartamentos ralés? Assumindo que não é pelo desejo de se manter no anonimato e difícil de localizar, esse é o ponto de relacionamento de Constantine com o poder. A autoridade corrompe de várias maneiras. Talvez seja por isso que John vive na merda, para se lembrar que ele veio das ruas e poderia facilmente parar lá novamente. Mas o que isso tem a ver com humor? Enquanto John não vive com classes altas e não aprecia muito poder social ele consegue fazer várias piadas. Uma coisa que a autoridade não pode enfrentar é ser motivo para piadas. Nenhum homem, mulher, entidade ou instituição está acima da habilidade de rir sobre isso.
Nossa sociedade pós-industrial é uma com grande poder governamental, grandes negócios e grandes projetos científicos. Nós somos enganados todos os dias de formas que nunca pensaríamos. Sistematicamente. E esse é o assunto. Não dá pra enfrentar o sistema; ele é composto de vários procedimentos padrões que envolvem um propósito e que está lá para impedir a anarquia. Você só pode resistir aos efeitos. John nunca iria enfrentar a ordem cósmica do Inferno e do Paraíso, mas ele freqüentemente os lembra que não se pode subestimar o "homenzinho". O humor deveria ser a primeira arma na luta com a resistência.
A quarta é o cinismo. É intrigante o sistema de crenças de John Constantine. Há um elemento nisso que é simplesmente postura machista. Chama muito a atenção. Ele simplesmente não está nem aí. Nem dá pra dizer o que é cinismo e o que é sinceridade. Mais do que a sua inevitável maldição, o que faz a vida de John mais intolerável e interessante é o extensivo entendimento que ele possui sobre a natureza humana. Esse é o nosso anti-herói e mago errante John Constantine.
Apesar de tudo, eu vejo a ascensão dos anti-heróis como um bom sinal. Não como uma rampa para o cinismo mas que a gente está amadurecendo. De que talvez a gente não precise mais de heróis. Só me pergunto o que nos aguarda no futuro. O anti-herói significa a morte de um inocente porque não dá mais pra jogar esse jogo. É óbvio que ninguém pensa em si mesmo como um vilão mas quando finalmente a gente rejeitar o estereótipo do sociopata monomaníaco e o instável maluco, iremos nos encontrar lendo as histórias sobre o ponto de vista dos vilões? E nós vamos reconhecê-los como vilões mesmo?
19 de julho de 2001
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