Os escritores de Hellblazer

Todos os títulos do selo Vertigo sempre contaram com roteiros e histórias muito bem elaborados os quais, de alguma maneira, criticam a sociedade atual passando alguma mensagem para os leitores analisarem, não de forma superficial mas bem a fundo. Os roteiristas da Vertigo sempre tiveram essa função: passar algo forte e reluzente para seus leitores.

Diferente das revistas de super-heróis que são para um público infanto juvenil, a Vertigo sempre teve histórias não exatamente para adultos mas, como a própria editora impõe em cada capa de suas revistas, para leitores maduros. Você não pode simplesmente pegar um título do selo Vertigo e ler como se estivesse lendo um gibi da Turma da Mônica ou uma história corriqueira do Batman ou do Homem Aranha; eles são muito mais profundos nos assuntos que são citados e muito mais irônicos e críticos, algumas vezes.

Analisando sobre esse prisma, veremos nesse artigo como foi a passagem dos principais roteiristas da revista Hellblazer, o título que está sendo publicado há mais tempo pela DC/Vertigo. São eles:

Jamie Delano (Hellblazer #1-24; #28-40 e #84)

Foi o primeiro escritor de Hellblazer. Quando John Constantine foi criado pelo lendário Alan Moore como personagem coadjuvante na revista Monstro do Pântano, logo de cara fez muito sucesso entre os leitores do título. Foi por causa desse sucesso que a DC resolveu criar um título mensal com Constantine como personagem principal. Contrataram então Jamie Delano, um escritor inglês, para escrevê-la.

Delano foi quem criou todo um passado e uma personalidade mais detalhada para o mago inglês. Ele que nos contou as coisas horríveis que John, ainda jovem e muito arrogante, aprontou em Newcastle na tentativa de exorcizar um demônio e como tudo saiu muito errado. Logo depois nos mostrou John internado em um hospital de segurança máxima chamado Ravenscar por causa dos enlouquecedores acontecimentos em Newcastle e o quanto ele sofreu nas mãos dos médicos, pais de família, que souberam que ele tinha matado uma garotinha inocente no incidente. Ainda nos contou como Constantine criou grandes inimigos e ficou muito conhecido no Inferno por destruir um dos maiores demônios de lá, o demônio Nergal, e como até hoje o sangue desse demônio flui pelas veias do mago; nos apresentou amigos como o taxista Chas que sempre ajudou Constantine quando ele precisava.

Os roteiros de Delano sempre contaram com muitos textos e diálogos, contando com detalhes perturbadores todas as histórias do anti-herói John Constantine. Seus roteiros entrelaçavam vários assuntos diferentes em cada arco de histórias como na Máquina do Medo (Hellblazer #14 a #22) onde nos deparamos com Magia, Pagãos, Maçonaria, Linhas de Ley, Medo, Conspirações governamentais e da polícia, entre outros.


Garth Ennis (Hellblazer #41-50; #52-83 e #129-133)

Sem dúvida o mais irreverente escritor de Hellblazer e o que fez mais sucesso também. Ennis sempre escreveu histórias violentas por isso foi convidado pela DC/Vertigo para substituir Jamie Delano no título mensal de John Constantine.

Desde o começo, Ennis criou uma mitologia própria para o personagem. Criou novos amigos e novos inimigos - entre eles um dos imperadores do Inferno, o Primeiro dos Caídos. Ennis, em sua primeira história, deu a Constantine um câncer de pulmão em estado terminal em decorrência do mago fumar três maços de cigarro, os famosos Silk Cut, todos os dias desde os dezessete anos. A partir daí criou vários roteiros muito bem planejados para contar como John se livraria daquele câncer trapaceando com os imperadores do Inferno, os três caídos, e como, com a ajuda de vários personagens, derrotaria o Primeiro dos Caídos. Além de demônios, Ennis também nos mostrou histórias de fantasmas e até de vampiros, nos apresentando a próprio Rei dos Vampiros, outro ser que acabou sendo morto por Constantine.

Quando estava preste a sair do título, Ennis matou praticamente todos os personagens que ele havia criado deixando tudo "limpo" para o próximo escritor que viesse, algo que poucos escritores fazem com um personagem hoje em dia.


Paul Jenkins (Hellblazer #89-128)

As histórias de Paul Jenkins ainda não foram publicadas por nenhuma editora no Brasil por isso não posso fazer uma análise muito aprofundada para não matar a surpresa dos fãs de Constantine se essas histórias algum dia forem publicadas por aqui.

Digamos apenas que Jenkins foi um dos escritores mais aclamados na sua passagem por Hellblazer. Entre suas histórias mais famosas, ele mostra como Constantine livra a alma de Astra dos domínios do Inferno e, exatamente em sua última história para o título, acaba de vez com o Primeiro dos Caídos e com Ellie, depois que John a trai por não ver mais utilidade nela, além de praticamente todos os personagens reluzentes da fase de Ennis e Delano.

Para quem achava que Ennis havia "limpado" o personagem, Jenkins veio, o fez de novo e ainda mais.


Warren Ellis (Hellblazer #134-143)

Ellis foi o escritor que ficou menos tempo escrevendo Hellblazer. O motivo de sua saída foi que uma de suas histórias, Shoot, bateu de frente com um dos momentos mais apreensivos pelos americanos, quando alguns jovens, portando armas, fizeram um verdadeiro massacre em 20 de abril de 1999 no Colégio Columbine. Mesmo tendo sido escrita bem antes, quando ia ser publicada, foi negado o direito de publicação por ser quase sobre o mesmo assunto: armas de fogo nas escolas de adolescentes. Na época, a DC/Vertigo propôs mudanças que roteiro da história que Ellis desaprovou totalmente e o fez apressar a sua decisão de deixar o título.


Brian Azzarello (Hellblazer #146 em diante)

Com a saída de Ellis, a DC/Vertigo contratou um escritor norte-americano para escrever o título o que não agradou muito os fãs já que sempre foram escritores britânicos que o fizeram.

Em seu primeiro arco de histórias, chamado Hard Time (Tempo Difícil), Azzarello coloca Constantine em uma prisão de segurança máxima e o priva de seus cigarros, de seu sobretudo, de sua liberdade e de suas conexões pessoais, coisas que ele sempre precisou para manter a sanidade. Era um mundo totalmente diferente do qual Constantine estava acostumado a lidar.

Apesar de ser um escritor muito aclamado por seu outro título mensal 100 Bullets, os fãs de John Constantine não estão muitos contentes com a fase de Azzarello no título. Mas é claro que existem exceções.

Por enquanto, tudo que podemos fazer é torcer para que as editoras, em especial a Brainstore, que está publicando os títulos da Vertigo no Brasil, mesmo com o alto preço do dólar, consiga continuar publicando as histórias de John Constantine por aqui. Se tudo der certo, quem sabe ainda veremos o trabalho que ainda não nos foi apresentado desses notáveis escritores em nosso próprio idioma.